Joguei-me de
costas na cama, soltando junto um profundo suspiro. Fechei os olhos, sentindo
toda a escuridão do quarto tocar minhas pálpebras. A janela semiaberta deixava
uma luz de fim de tarde entrar no recinto, e era por meio dessa luz que eu
conseguia enxergar minhas mãos suadas. Sentei-me. Agarrei um maço de cigarros
do bolso do casaco que estava usando, e um isqueiro do bolso oposto. Encaixei-o
entre lábios e acendi. Era como se todas minhas preocupações e receios fossem
embora naquela primeira tragada, e voltassem com a fumaça que eu soltava pelas
narinas. Deitei novamente no acolchoado. Era tudo confuso, eu queria realmente
sumir daquele lugar. Queria ir embora, quem sabe recomeçar uma nova vida, ou
qualquer coisa assim. Queria dizer adeus a meus amigos e amantes, queria dar
tchau pros meus pais e “poff” sumir. Tantos pensamentos corriam por minha
mente, tantas coisas inacabadas, a única coisa que se passava por minha cabeça,
no entanto era “Por que diabos estou aqui?” Já era pra meu tempo na terra ter
expirado fazia tempo. Eu era uma existência vazia e enojada que vagava as
vielas escuras e frias a procura de um motivo pra viver. Toda vez que virava
aquela garrafa suja de uísque, era pra ver se me encontrava no outro canto do
vasilhame.
Aliás,
esqueça sobre amigos e amantes. Amigos eu tive poucos, amantes, nenhum. Quem
sabe apenas uma namoradinha no colegial, mas nada que passasse de uma
paixãozinha platônica. E os amigos que me restaram, o inferno para eles. Amigos
não deixam que você se afunde dessa forma. Ou pelo menos, estariam se afundando
comigo.
E meus
pais... Nem sequer sabem onde estou. Fugi de tudo quando era novo, e não queria
mais me encontrar. Era difícil, difícil perceber que o que lhe resta é o fundo
de um poço úmido e escuro. Era mais difícil ainda perceber que é tudo culpa
sua. Que é sua culpa estar desse jeito. E que nada, nada vai mudar.
Levantei-me
da cama e me virei para a janela, abrindo-a mais um pouco e sentindo o ar
gélido beijar meu rosto. Respirei fundo, sentindo minhas vias respiratórias
tilintarem de frio. Podia parecer estúpido, mas eu estava num estado de
depressão tão grande que eu conseguia sentir vida apenas nessa puxada de ar
fresco. Eu poderia sentir vida vindo dos cantos imundos do quarto, onde as
baratas repousam. E talvez fosse disso que eu precisava. Vida. Infelizmente,
não é algo que você compre em pacotinhos ou vidrinhos para a viagem. Vida era
algo difícil de se encontrar, árduo para conquistar e mais difícil ainda para
se manter. Alguns se encontravam na religião, outros em um grande amor. E eu,
encontrava vida no ar que regava meus pulmões maculados com fumaça.
Por fim,
acabei deitando-me de novo na cama. A tarde acabara, o sol se punha e a noite
viera. O quarto estava silencioso e escuro.
Fechei os olhos novamente e dei a última tragada em meu cigarro.
Atirei-o no chão, murmurando um silencioso “Foda-se isso.” Mesmo que ninguém
fosse ouvir.
No outro
dia, eu arrumaria minhas coisas e procuraria mais. Mais desse ar, mais de algo
que me guiasse a continuar vivo.
É incrível a
quantidade de coisas que surgem enquanto você acende um cigarro.
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